terça-feira, 20 de setembro de 2011

André Neves - O matemático que vale um milhão

André Neves, matemático

O matemático que vale um milhão


Starting Grant do Conselho Europeu de Investigação foi para um português

2011-09-15
Por Luísa Marinho (Texto)
André Neves é o primeiro matemático português a receber do Conselho Europeu de Investigação uma Starting Grant – uma bolsa no valor de um milhão e 100 mil euros para os próximos cinco anos.

O projecto que convenceu o painel de especialistas da ERC Starting Grant chama-se «Curvatura escalar positiva e fluxos de curvatura média Lagrangianos» e pretende, através da análise geométrica, encontrar respostas para a questão da existência de superfícies mínimas, objectos clássicos em matemática, para além do Euclideano.

Embora pense em regressar a Portugal, não será nos próximos anos, já que acredita que o Imperial College dará mais visibilidade ao seu trabalho.

 

«Ciência Hoje» (CH): Em que medida é importante para a sua carreira ter ganho este programa de apoio à investigação?
André Neves (A.N.): É importante porque me permite formar um grupo na minha área; isto é, dá-me a possibilidade de contratar alunos para fazerem o doutoramento e pós-doutoramentos para trabalharem no meu projecto. Além disso, com este programa, não terei de me preocupar com financiamentos durante os próximos cinco anos.

CH: Que impacto pode ter, ou não, na investigação matemática em Portugal?
A.N.:
O impacto é capaz de ser limitado. Pretendo organizar actividades científicas no país, nos próximos anos, mas mesmo não tendo ganho esta bolsa, iria de qualquer forma tentar continuar a organizá-las.

CH: Está a desenvolver o projecto «Curvatura escalar positiva e fluxos de curvatura média Lagrangianos». Pode-me falar um pouco dele, explicando o que está a investigar de novo?
A.N.:
Em termos gerais, o projecto consiste em estudar superfícies mínimas, que são objectos clássicos em Matemática e são estudados há mais de 250 anos. Por exemplo, se molharmos uma armação de arame num balde com sabão e água, a película que se forma é uma superfície mínima. (Se fizermos uma busca de "minimal surfaces" no Google, em imagens pode facilmente ver-se o que são). Uma ideia pioneira em Geometria, nos anos 70, foi a revelação que estas superfícies podem ser usadas para entender geometrias não Euclideanas. Para além disso, as superfícies mínimas têm também uma importância central na Teoria da Relatividade. Por exemplo, a formulação matemática de buracos negros é descrita em termos de superfícies mínimas…

Este projecto consiste em estudar superfícies mínimas em espaços não Euclideanos, nomeadamente espaços de dimensão 3 ou 4. Tento responder a questões como se dados estes espaços, é sempre possível encontrar superfícies mínimas e, se for possível, tentar saber quantas há.

As aplicações serão todas teóricas e a minha motivação vem toda da parte Matemática. No que respeita a espaços de dimensão 3 a aplicação mais imediata é a seguinte. Se fixarmos o tempo no espaço-tempo da Teoria da Relatividade, obtém-se um espaço de dimensão 3 no qual a existência de buracos negros corresponde, em certas situações especiais, a superfícies mínimas no espaço tridimensional. É importante entender a topologia desse espaço em termos dessas superfícies mínimas e é isso que eu tento responder.
Biografia
André Arroja Neves nasceu em 1975, em Lisboa, e tem desenvolvido investigação na área da geometria diferencial e análise de equações com derivadas parciais. Actualmente é professor do Departamento de Matemática Pura, do Imperial College, em Londres. Iniciou a vida académica no Instituto Superior Técnico e obteve o doutoramento em Matemática na Stanford University, nos Estados Unidos, tendo posteriormente tirado um pós-doutoramento na Princeton University, onde foi promovido a "professor assistente".


Recebeu vários prémios e bolsas, nomeadamente da National Science Foundation, da Clay Mathematics Institution, da Fundação Calouste Gulbenkian e do European Research Council. No seu currículo tem também inúmeros artigos publicados, nomeadamente no «Annals of Mathematics» e no « Inventiones Mathematicae». Em Julho de 2010, participou no Encontro Nacional da Sociedade Portuguesa de Matemática como orador convidado.
CH: Que aplicações práticas podem surgir a partir daí?
A.N.:

No que respeita a espaços de dimensão 4 e mais alta a aplicação mais imediata é a seguinte. Uma ideia corrente em Geometria é que num certo tipo de espaços (chamados Calabi-Yau) há uma correspondência entre superfícies mínimas (chamadas Special Lagrangian neset contexto) num modelo e uns objectos mais complicados (conexões) num outro modelo. Este princípio tem aplicações em Física-Teórica (Mirror Symmetry) e é portanto perceber a existência de Special Lagrangians.

CH: Pretende usufruir da sua bolsa aí no Imperial College de Londres?
A.N.:

CH: Pensa em voltar para Portugal?
A.N.:
Sim, mas não nos próximos anos. Na minha área de investigação, o Imperial College é dos melhores centros do mundo e, sendo assim, por cá, as possibilidades de desenvolvimento do meu trabalho são gigantes.

Sim.

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